Proposta DuplexAir

Iniciei há 6 anos um projecto que antes de o ser podia simplesmente ser descrito como um mergulho na escuridão, que firmou-se na total rejeição dos eixos comuns e orientadores pré-concebidos na criação artística.

Nas ruínas de uma antiga fábrica de pesca tenho vindo a desenvolver instalações que se expandem numa vitalidade impossível de prever aquando o início da descida.

A localização geográfica, a actividade envolvente, a fauna, a flora e o próprio nome das ruínas, Atlântica, nutriu e impulsionou-me na criação de uma linguagem plástica que projectou as suas ligações a todo o ambiente envolvente e que também estendeu raízes à mitologia.

As raízes encontraram a entidade Cleyto, do mito da Atlântida, resgataram-na ao esquecimento e projectaram-na como eixo nuclear no meu processo artístico. Ela é símbolo da relação assimétrica entre humano-natureza e homem-mulher contemporâneos. Nasceu no projecto Atlântica (img.1) e expandiu-se na exposição individual HYLAND (img.2,3 e 4), onde assimilou outro corpo de trabalho,  a intervenção sobre televisores partidos. Neste movimento Cleyto estendeu os tentáculos ao nosso tempo, à nossa dimensão, e contacta através da fonte mais bebida da nossa era, o ecrã.

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Img.1 - Atlantica Project - Cleyto, 2018.

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Img.2- Cleyto,2019.MDF,rede de arame,LCD,papier maché,vidro,madeira, goma laca,tinta esmalte,spray.

Dimensões variadas.

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Img.3- Cleyto (detalhe)

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Img.4- Cleyto,2019, rede de arame,papel maché, vidro, tinta de esmalte, spray e óleo. Dimensões variadas.

A presente proposta visa dar continuidade ao desenvolvimento da Cleyto cruzando duas abordagens extremamente distintas, uma através do desenho monocromático em pequenos formatos que parte do desenho Cleyto doodles (img.5) e o impulsiona à série. Viso uma sequência que explore sobriamente o nascimento, desenvolvimento e aspiração teológica /conceptual do corpo de trabalho Cleyto. Geometria, monocromatismo, pequenos formatos e regularidade destas premissas em toda a série farão dela uma comunicadora estável, cerebral e sóbria.

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Img.5- Cleyto doodles, 2019. Caneta Bic e grafite s/ papel Zerkal. 20,5x15cm.

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Img.6- Simulação da montagem da série Cleyto doodles

A segunda abordagem, instalativa, daria continuidade à presença escultórica da Cleyto, trata-se de uma abordagem sensorial, extremamente imersiva  e envolvente. Esta instalação tiraria partido do aspecto desolado e decadente dos wcs desactivados. Aponto a um organismo que se alastra no chão, paredes e tecto, com televisores a transmitir vídeo , engolidos nesta matéria. O trabalho sonoro seria invocado em parceria com um artista sonoro.

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Img.7- Simulação da montagem da instalação Cleyto.

O abismo entre as duas abordagens é preenchido pela escuridão uma vez que a iluminação seria distribuida pontualmente nas peças através de focos.

Escuridão, matéria vital, é o véu por onde se desloca o visitante, deslizando entre dimensões tão distintas, caberia ao próprio conectar dois planos aparentemente distantes.

Daniel Alfacinha, 2020.

DANIEL  ALFACINHA